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“O movimento de mulheres lésbicas está em um momento de rearticulação e fortalecimento” (29/8/2018)
ELAS

KK Verdade tem uma longa relação com o Fundo ELAS. Ativista feminista lésbica, KK conheceu o Fundo ELAS quando integrava a Coturno de Vênus – Associação Lésbica Feminista de Brasília. Depois disso integrou o Conselho do Fundo ELAS, foi gerente de programas e desde 2014 atua como coordenadora executiva.

Celebrando o Dia da Visibilidade Lésbica, KK nos deu uma entrevista em que comenta sua trajetória como ativista, a relação do Fundo ELAS, organização fundada por 5 ativistas feministas lésbicas, com o movimento de mulheres lésbicas, e também o momento atual de rearticulação e fortalecimento desse movimento no país.
 

Quando e como você se reconheceu enquanto ativista feminista e como começou a atuar na luta pelos direitos das mulheres?
 
Eu me descobri feminista quando eu conheci uma professora feminista em Brasília, ela era lésbica e dizia que ser feminista era uma construção crítica de si mesma, uma construção e descontrução crítica de si mesma diária. E ela dizia também que feminista era quem não tolerava machismo, o mundo dos homens oprimindo as mulheres. E aí eu me identifiquei imediatamente com isso, porque enquanto lésbica eu já de forma meio espontânea era contra essas opressões dos homens, eu negociava muito pouco com opressões, com machismos, com tratamento diferenciado entre homens e mulheres. Não precisava ficar justificando isso na minha vida. Então foi “ah, não sabia que eu era feminista mas sou desde sempre”. Aí eu descobri também que estava sempre envolvida com a luta das mulheres.
 
A minha primeira atuação em uma organização da sociedade civil foi em uma ONG LGBT lá de Brasília, e dava pra notar que os homens tinham mais espaços, tinham um papel mais nobre na organização, de dar entrevistas e tal, e as mulheres tinham um papel mais interno, desde cuidar da limpeza, atender telefone, cuidar do dia a dia da ONG. E aí isso já foi horrível, foi muito ruim perceber essa diferenciação. Então a gente organizou um núcleo de lésbicas dentro dessa organização por meio do qual a gente conseguia ter uma reunião específica para  mulheres e também dava uma prioridade para o nosso ativismo enquanto mulheres dentro da organização – porque até o nosso ativismo ficava diluído naquelas atividades de rotina, sabe? Então também acho que as primeiras beneficiárias do meu ativismo fui eu mesma e nossas companheiras de dentro da ONG. E consequentemente as meninas que a gente reunia da comunidade LBT.
 
E aí é uma coisa impressionante: no mesmo momento em que você começa a se dar conta do quanto você está sendo oprimida, discriminada, você vai abrindo espaço para ouvir de outras discriminações que as mulheres estão vivendo, aí o ativismo nunca mais acaba, porque sempre tem um motivo para você lutar, para você continuar, para você se impor contra uma injustiça. Sempre tem um bom motivo para continuar lutando, sempre vale a pena continuar lutando. 
 
Sua primeira relação com o Fundo ELAS foi como integrante de um dos grupos apoiados, em um edital focado em Diversidade Sexual lançado em 2008, que foi uma iniciativa conjunta do Fundo ELAS com outros 5 Fundos de Mulheres da América Latina (Alquimia, Fundo de Mulheres do Sul, Fundo Lunaria, Semillas e Fundo Centro-americano de Mulheres), a Global Fund for Women, a Astraea Lesbian Foundation for Justice, Mama Cash, HIVOS e Fundação Ford. Depois disso você integrou o Conselho do Fundo ELAS, foi Gerente de Programas e desde 2014 é Coordenadora Executiva. Como foi esse processo? Qual foi a importância desse encontro com o Fundo ELAS na sua trajetória como ativista?

Eu acho que eu sou um exemplo de empoderamento das mulheres para o qual o Fundo ELAS tem a missão de contribuir. Porque foi isso que aconteceu: na verdade quando nós participamos como grupo apoiado – eu fazia parte da Coturno de Vênus, uma associação lésbica feminista de Brasília –, nós já tínhamos uma certa experiência desse ativismo lésbico no Brasil. E por ser uma organização que estava na capital federal, a gente acabava tendo que fazer muito monitoramento do Congresso Nacional, das políticas públicas mais nacionais, então a gente funcionava um pouco como uma secretaria do resto do movimento de mulheres lésbicas, a gente informava o que estava acontecendo em Brasília, a gente tentava mobilizar outras organizações de mulheres para defenderem políticas públicas como  o Brasil Sem Homofobia, a criminalização da homofobia, ou mesmo o PL da união civil entre pessoas do mesmo sexo, a gente acabava fazendo um trabalho no âmbito nacional.
 
Mas a gente não tinha tanta infraestrutura - o movimento de lésbicas no geral naquela época, no começo dos anos 2000 -, não tinha muita infraestrutura para discussões regionais na América Latina. Esse primeiro apoio que recebemos do Fundo ELAS era vinculado com outros países da América Latina. E no final dessa iniciativa de apoio aos movimentos de lésbicas da região, teve um encontro de avaliação com todos os grupos apoiados na Guatemala, nos dias anteriores à realização do Encontro Lésbico Feminista Latino-americano e Caribenho, o ELFLAC. Então foi incrível, porque nós passamos alguns dias com grupos de lésbicas da América Latina discutindo os problemas da violência contra lésbicas, das estratégias diferentes de visibilidade lésbica na região, e também conhecemos metodologia de trabalho de organizações, foi muito interessante. Então a gente estava muito articulada e em seguida pudemos estar presentes no ELFLAC. Além dos grupos apoiados, ainda mais ativistas e organizações de toda a região reunidas por conta do ELFLAC. Aí foi magnífico, realmente fortaleceu muito o movimento de lésbicas na região. Foi super importante. Daquele encontro surgiram outros encontros, outras discussões foram feitas...
 
Um tempo depois eu me retirei da Coturno para fazer mestrado. Então, o Fundo ELAS me abordou pra saber se eu tinha interesse em fazer parte do Conselho. E o Conselho tinha o papel de divulgar o Fundo ELAS e seus editais, então eu, sendo do movimento de lésbicas e feminista, podia divulgar com esse público, podia estimular as organizações a mandarem projetos, e ao mesmo tempo eu poderia fazer uma discussão dentro do Fundo ELAS sobre esse movimento de lésbicas feministas dentro do grande movimento de mulheres do Brasil.  Então era muito legal, a gente podia trocar informações entre conselheiras e conhecer um mecanismo tão sofisticado e inovador como é um fundo de mulheres.
Porque dentro do movimento de mulheres a gente não conhece muito esses mecanismos que são dedicados a mobilizar recursos. Cada organização desenvolve um método para mobilizar recursos, mas o foco é a ação mesmo que a gente faz lá na ponta. E no Fundo ELAS o foco é mobilizar recursos, é conseguir conquistar apoiadores, parceiros, investidores, da importância de se financiar o movimento de mulheres.
 
A partir da minha participação no Conselho fui tendo um conhecimento mais técnico sobre esse mecanismo. Então, uns anos depois abre uma chamada para gerente de programas do Fundo ELAS - que seria, digamos assim, a minha única possibilidade de entrada, porque era a área vinculada aos movimentos de mulheres. As outras áreas eram muito técnicas pra mim e ainda não tinha condições, tinha que ser nesse campo voltado aos movimentos sociais. Então eu pedi licença do conselho para aplicar para essa vaga. Passei por todas as fases e consegui ser selecionada e trabalhei anos na área de programas. Aí foi muito legal, porque eu pude conhecer muito mais os movimentos de mulheres! Porque quando eu estava no movimento de lésbicas eu conhecia muito bem o movimento de lésbicas, eu colaborava muito com o  movimento de direitos humanos, que é uma tradição do movimento LGBT, e com o movimento feminista eu conhecia a rede da qual a Coturno fazia parte, mas a gente não conhecia muito para fora dessa rede. E imagina que o Brasil tem uma centena de redes, articulações e organizações feministas. Então é muita gente, é muito trabalho, muita diversidade, muita complexidade de sujeitos políticos, de ação política.
Foi minha porta para conhecer esse mundo de movimentos de mulheres, foi incrível poder estar nesse campo de programas do Fundo ELAS.
Então a gente teve uma transição da gestão, da coordenação do Fundo ELAS, e aí eu fui testando a possibilidade de me encaixar nessa coordenação, de ver como eu poderia contribuir com o Fundo ELAS, com o crescimento e desenvolvimento do Fundo ELAS.
 
Aí a partir de 2014 comecei a atuar como coordenadora executiva, em parceria com a Amalia Fischer, coordenadora geral,  e tem sido maravilhoso sonhar o Fundo ELAS e como o Fundo ELAS pode empoderar outras mulheres, empoderar o movimento de mulheres no Brasil, alcançar a conquista de mais direitos. E ao mesmo tempo colaborar também com o avanço dos direitos das mulheres na América Latina, porque nós trabalhamos em rede com outros fundos de mulheres da região, e ao mesmo tempo pensar nessa mobilização de recursos e interesses no avanço dos direitos das mulheres no mundo, porque nós também fazemos parte de uma rede de fundos internacional. É um privilégio. 
 
E literalmente, se você for ver, a minha história com o Fundo ELAS, essa história de empoderamento, é uma história de atravessar fronteiras. O Fundo ELAS foi expandindo as minhas fronteiras. Como se empodera uma mulher? Expandindo as suas fronteiras. A próxima fronteira que o Fundo ELAS vai me expandir é para a Via Láctea, rs, porque já estamos no nível planetário. Talvez é Marte, de repente, rs. Mas para o Fundo ELAS não tem limite a possibilidade de empoderamento das mulheres.
 
Entre avanços e desafios, a luta das mulheres lésbicas por visibilidade tem acumulado muitas conquistas. No Rio de Janeiro, por exemplo, o PL da Visibilidade Lésbica foi reprovado na Câmara dos Vereadores, mas as lésbicas estão nas ruas, lotando saraus, slams, lançando publicações, ampliando sua representatividade na mídia, etc. Como você vê esse cenário e o atual momento do movimento de mulheres lésbicas?
 
Eu espero que o atual momento seja um momento de rearticulação e fortalecimento. A pauta da visibilidade lésbica é fundamental por vários motivos, uns mais filosóficos, outros menos. Em relação às lésbicas, o que acontece? Lésbica, dentro de um sistema patriarcal, é uma mulher que não tem um homem, logo, ela não é nada. Isso é invisibilizar. É dizer que a lésbica não existe. Então, uma mulher junto com outra é a junção de dois nadas. Dentro de uma lógica patriarcal, e pensando aqui filosoficamente, tudo se invisibiliza, começando pela lésbica em si – ou ela queria ser homem, ou é mal amada, ela nunca quer ser lésbica.
E na verdade a lésbica existe por si só. E se ela não existe, a violência contra ela não existe, a discriminação contra ela não existe, a saúde dela também não. Ela não existe como cidadã para o Estado. 
Como isso se desdobra nesse mundo patriarcal onde a mulher é um nada, esse lugar da lésbica vai acumulando invisibilizações até o ponto em que a vida fica inviável. É muito sofrimento, pode gerar muita dor, tanta negação de existência, tanta negação de direitos, de cidadania.
E a violência também. É uma violência contra um corpo que não pode existir, porque se, dentro dessa lógica patriarcal, o homem tem valor e a mulher não tem nenhum, como essa mulher tem a audácia de se colocar na mesma altura que o homem? Isso no machista gera um mal estar tão grande, faz com que ele tenha tanto ódio, tanta misoginia. Ele expressa sua misoginia nesses corpos dessas mulheres, que são mulheres fora de seu lugar, elas não sabem o seu lugar. Elas não querem estar subjugadas. Então é um nível de violência contra os corpos dessas mulheres não apenas por serem mulheres, mas pelo fato de serem lésbicas, não quererem um homem, não se submeterem a um homem na sua vida. Isso mexe com essa mentalidade machista de uma forma que faz com que os crimes contra mulheres lésbicas sejam muito violentos.
 
Então o tema da visibilidade é importantíssimo. E muitas ativistas trabalham há décadas com essa agenda e não é para fazer propaganda, é para existir, para afirmar uma existência. O direito à visibilidade lésbica é o direito de existir para essas mulheres, para esse movimento social.
 
E tem muitas ativistas que morreram nessa caminhada de construir uma visibilidade. Porque estavam aí, completamente visíveis, fora do armário, disputando o espaço público, a voz e a visibilidade. Então hoje eu acho que a gente tem consequências disso, como artistas que têm se autoafirmado como lésbicas e que contribuem de uma forma maravilhosa para a visibilidade, mas é certamente reflexo de um trabalho anterior, um trabalho muito mais doloroso e que custou algumas vidas. Acho que o avanço dos meios de comunicação, essa comunicação mais acessível com as mídias sociais, torna possível que a gente consiga ter mais visibilidade positiva – porque aquela visibilidade lésbica negativa e preconceituosa sempre teve, né, se formos lembrar... Está o Chacrinha que não nos deixa mentir, com suas músicas de carnaval falando da Maria Sapatão. Visibilidade negativa até que sempre teve. A gente poder espalhar hoje em dia uma mensagem mais positiva, ter uma diversidade maior de opiniões nesse discurso público é uma coisa positiva desse cenário do movimento de mulheres lésbicas de hoje em dia.
 
E também, do ponto de vista dos recursos, dos apoiadores, há uma maior conscientização sobre a injustiça que é discriminar as pessoas por que são LGBT, discriminar as pessoas por sua orientação ou identidade sexual e de gênero. Há hoje em dia menos tolerância a discriminações dessa natureza. Então acaba aparecendo mais oportunidades de se mobilizar recursos para essa luta. 
 
Então imagino que agora a gente está entrando numa fase de rearticulação dos movimentos e de fortalecimento desse movimento de mulheres lésbicas – lésbicas, bis, trans, como um todo, mas acho que o movimento de lésbicas tem tudo para conquistar muito mais do que tem conquistado.
 
A gente já transformou muito em termos de visibilidade lésbica e transformação cultural, mas do ponto de vista de políticas públicas ainda tem muita coisa para ser conquistada, muito trabalho para ser feito. Do ponto de vista também da produção acadêmica, o movimento de lésbicas tem muito a contribuir, com os estudos de gênero e feministas, etc e tal. Há muito ainda que se investir nesse campo.
 
Eu realmente espero que seja esse momento. Eu tenho visto cada vez mais escritoras, pensadoras lésbicas, tenho visto vários coletivos surgindo no Brasil inteiro, não apenas na capital, mas no interior do país. É um momento mesmo de rearticulação do movimento. E mesmo chamando de ‘movimento de mulheres lésbicas’, a gente vê que tem muitas identidades lésbicas sendo mobilizadas, tem muitas formas de ser lésbica: pode ser lésbica e ser mulher, pode ser lésbica e não ser mulher, lésbica e negra, lésbica e jovem, lésbica e do campo e da floresta, lésbica e indígena, tem muitos sujeitos políticos dentro dessa identidade lésbica que está se rearticulando nesse século.
 
 
No mês da visibilidade lésbica estamos homenageando as 5 fundadoras do Fundo ELAS, todas ativistas feministas lésbicas. A luta pelos direitos das mulheres lésbicas está na origem do ELAS, que sempre apoiou grupos de lésbicas e fortaleceu o movimento LGBT.  Poderia comentar a importância do apoio do ELAS ao movimento de mulheres lésbicas no Brasil?
 
Primeiramente ter sido fundado por mulheres lésbicas já dá ao Fundo ELAS uma sensibilidade a mais. Quando a organização olha para o campo  das discriminações contra as mulheres, ela tem uma sensibilidade  a mais, que foi um presente, um legado das fundadoras lésbicas. 
 
Se não fosse esse legado no Fundo ELAS, eu talvez não teria chegado aqui. E se não fosse essa sensibilidade o Fundo ELAS talvez não tivesse apoiado organizações de lésbicas desde o seu primeiro edital, quase 20 anos atrás – talvez isso tivesse ficado para depois, quando conseguisse um apoio específico para essa população.
 
Mas o fato de ter essa sensibilidade, esse legado das fundadoras lésbicas, fez com o ELAS sempre estivesse apoiando pelo menos uma, duas organizações de  lésbicas por ano, em editais que tinham temáticas como cultura, enfrentamento à violência, enfrentamento ao racismo. 
Pois o Fundo ELAS sempre conseguiu ver as organizações de lésbicas que estavam atuando nesses campos.
 
Medir a importância disso é muito difícil, mas sem dúvida isso é muito valioso. Do ponto de vista do movimento de lésbicas, o Fundo ELAS é um parceiro que constantemente está lá. Que mesmo que não tenha recursos diretos para apoiar, está sempre tentando construir uma agenda, tentando construir possibilidades de parceria, possibilidades de apoio e fortalecimento do movimento de lésbicas, sempre preocupado com essa interlocução. E reinventando possibilidades de apoio mútuo.
 
 
 
 
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