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História de uma liderança: Creuza Oliveira conta como se engajou na luta por direitos das trabalhadoras domésticas (18/5/2017)
ELAS

Nesta quinta o Fundo ELAS lança o quarto e último bloco da série Trabalhadoras Domésticas: Direitos e Desafios - Uma Conversa com Creuza Oliveira. Desde o dia 27 de abril, Dia da Trabalhadora Doméstica, toda quinta-feira publicamos trechos de entrevistas com a secretária geral da Federação Nacional das Trabalhadoras Domésticas (Fenatrad) sobre a luta da categoria por direitos, uma luta que o Fundo ELAS acompanha, apoia e fortalece.

Hoje vamos conhecer a história pessoal de Creuza Oliveira, que começou a trabalhar como doméstica antes dos 10 anos de idade e nos contou sobre seu processo de conscientização e formação política:

 
Creuza por ela mesma: trajetória de uma liderança
 
Minha relação com o movimento de trabalhadoras domésticas vem do meu próprio trabalho. Comecei a trabalhar antes dos 10 anos de idade como doméstica e assim levei minha infância, adolescência e juventude. Na época, não tinha noção de que estava sendo violentada nos meus direitos de criança, de que estava assumindo responsabilidades de uma pessoa adulta e sofrendo diversos tipos de violência. Sofri violência moral e tentativa de violência sexual. 

Aos 27 anos comecei a perceber que nas casas em que eu trabalhava meus patrões trabalhavam mas tinham férias (nessa época geralmente quem trabalhava era o marido). A família estava junta no fim de semana, ia ao clube, à praia. Eu não tinha isso, sempre estava trabalhando, tinha que deixar tudo pronto sempre. Comecei a me perguntar por que não tinha o direito de ter minha casa, de estar com minha família em momentos de descanso. A ficha começa a cair, fui percebendo determinadas coisas que não percebia.

Depois de algum tempo pensando nisso ouvi no rádio uma entrevista com uma mulher que estava se candidatando a vereadora, que disse se fosse eleita ia defender os diretos das mulheres, das crianças e das “empregadas domésticas”. Essa candidata era dona de uma rede de lojas em Salvador.

Naquela época todas as trabalhadoras domésticas tinham um radinho de pilha. Era nosso parceiro em meio àquela solidão. Os patrões e patroas se recolhiam na sala, no quarto, e a gente ficava isolada nas dependências, na cozinha e nosso quarto, às vezes tinha casa com televisão na cozinha ou na copa, mas essa televisão tinha hora para ligar e desligar, já o radinho podia nos acompanhar. Foi através desse radinho que ouvi essa mulher falando.

Eu entrei no movimento em 1984 através dessa entrevista da moça que ouvi na rádio. Aquilo foi como uma luz no fim do túnel, por que eu já me perguntava algumas coisas... A gente só tinha folga naquela época de 15 em 15 dias. Tinha patrão que dava, outros não, pois a lei não dizia nada. Eu gostava do trabalho, me apegava às crianças, sofria quando deixava a casa por causa das crianças, mas ficava revoltada porque no fim de semana todo mundo tinha seu lazer e eu não tinha.

Aquela candidata disse na entrevista que a lei não permitia que as trabalhadoras domésticas se articulassem em sindicatos mas que elas estavam se organizando: um grupo se reunia duas vezes por mês no Colégio Antônio Vieira, que era um colégio particular, de classe média, mas que oferecia bolsas noturnas para trabalhadores. 

Fiquei encantada com aquilo! Eu ouvi numa tarde depois do almoço, quando minha patroa estava na soneca da tarde dela. Gravei tudo e quando minha patroa chegou na cozinha, perguntei onde ficava o colégio e pedi para marcar no calendário o segundo e o quarto domingo do mês. Ela perguntou por que eu estava interessada. Eu contei que ouvi uma mulher no rádio dizendo que tinha uma missa lá nesses dias. Não quis dizer que era uma reunião das domésticas se organizando porque sabia que ela ia dizer que eu não deveria ir, que ela ia me desestimular. Aí comecei a mobilizar as domésticas do prédio em que eu trabalhava, mas muitas diziam que não podiam, que iam sair, que não iam usar a folga para isso.

Minha ideia era de que seria um auditório lotado. Fiquei com uma expectativa enorme o mês inteiro. No dia fui com minha irmã, que também trabalhava como doméstica. Quando cheguei lá foi uma decepção horrível, tinha um grupinho de 4 ou 5 pessoas. Foi um balde de água fria. Perguntaram como fiquei sabendo do encontro, ninguém conhecia a candidata, ela nunca tinha estado lá, embora tivesse as informações.

Participei da reunião, gostei de estar lá discutindo. Esse grupo era um grupo de alunas da escola que eram trabalhadoras domésticas. Havia a discussão de que as domésticas eram trabalhadoras e precisavam se relacionar com outros grupos de trabalhadores e trabalhadoras. Diziam: “vocês não são da família, patrão não é família. A casa do patrão não é a casa de vocês, vocês precisam ter salário (na época a lei não obrigava a pagar salário), não é pra ser a “menina da casa”...”

Aquilo tudo chamou minha atenção, dali em diante não saí mais do grupo. Aquilo passa a fazer parte da minha vida, torna-se um projeto de luta. Tinha reunião que não aparecia ninguém, eu ia, ficava debaixo da árvore em frente ao colégio de 14h às 17h. Naquela época eu morava na casa do patrão, nem sabia o que fazer na folga porque não tinha amigas, não tinha para onde ir. Minha patroa dizia “cuidado com as amizades”, “cuidado com os rapazes”, “cuidado com a minha chave”... Isso me isolava, a ponto de não saber fazer amizades. Além de eu já ter um perfil mais calmo, mais tranquilo, mais caseiro, ainda tinha essa coisa do medo, do terrorismo que a patroa fazia pra não fazer amizades, que é uma estratégia para manter domínio sobre a pessoa. Quando conheci esse grupo, ele também fez parte desse processo de criar novos vínculos.

A princípio a reunião não era um debate como os de hoje, não falávamos de reforma trabalhista, de violência... Naquela época não era isso, a gente sentava e falava dos desafios que a gente tinha tido durante a semana com a patroa. Às vezes a professora que nos assessorava dizia: “vocês têm tem que tomar conta da luta de vocês, estou aqui mas são vocês que têm que falar, dar entrevistas, andar com as próprias pernas”.

Nesse processo todo fui conhecendo outros movimentos de trabalhadoras domésticas no Brasil, conheci também o movimento negro. No MNU (Movimento Negro Unificado) conheci pessoas como Luiza Bairros, Valdecir Nascimento... Fiquei encantada com o cabelo black da Luiza! Ali comecei a pensar na questão da mulher negra que tinha vergonha do cabelo, que alisava. 

Eu via mulheres falarem das coisas com tanta segurança, tanta força, tanta autoridade, eu queria ser como elas. Isso me ajudou a me aceitar enquanto mulher negra. Naquela época eu não conseguia nem me olhar no espelho, eu me achava horrorosa, achava que nenhum cara ia me querer porque eu era feia. Aí é que eu começo a me aceitar. Era 1985: em 1984 eu conheci o grupo, em 1985 descobri o MNU.
Em 1986 a gente cria a Associação das Trabalhadoras Domésticas da Bahia. 

Ainda em 1985 participei do V Congresso Nacional de Trabalhadoras Domésticas em Pernambuco, que foi um marco na minha vida. Pude ver que o que eu sofria em Salvador as companheiras de Recife, Rio, São Paulo, todas sofriam. No Sul e Sudeste as condições de trabalho eram um pouco melhores do que no Norte e Nordeste, mas estávamos todas ali por direitos.

Foi também nesse congresso de 1985 que conheci Dona Laudelina, já com o cabelo todo branquinho, conheci também Benedita da Silva, que na época era deputada estadual, companheiras do SOS Corpo, várias mulheres do movimento, o pessoal da igreja progressista... Fiquei maravilhada com as falas das companheiras.

Quando voltei para Salvador, voltei maravilhada e com a certeza de que aquele grupo era definitivo, que eu jamais ia me afastar. Aí a gente consegue criar a Associação na Bahia em 1986. Participei da criação do Conselho Municipal dos Direitos das Mulheres de Salvador, enquanto Associação de Domésticas nós fizemos parte desse conselho.

Começamos a participar do movimento pró-constituinte: em 1988 a gente leva para o Congresso de incluir os direitos das trabalhadoras domésticas na Constituição. Fomos uma das maiores categorias presentes, ao lado das trabalhadoras rurais. E a categoria que mais teve conquistas foi a das trabalhadoras domésticas. Nós acampamos em Brasília. Às vezes não era possível ir muita gente, mas a gente se articulava com outros movimentos para conseguir passagem de ônibus. Benedita era nossa porta voz, ela nos mantinha informada sobre dias de votação, sobre eventuais problemas e outras coisas. Ela fazia pressão para que nos estivéssemos presentes, fazendo vigília, cobrando dos deputados.

Houve vários discursos de deputados dizendo que tinham empregada em casa, que era como se fosse da família, como se fosse uma mãe... Ulysses Guimarães disse que tinha uma empregada há 30 anos...
Elegemos Lenira de Carvalho como porta voz no congresso, que se dirigiu ao Ulysses Guimarães, presidente da Assembleia Constituinte: “Somos cerca de 4 milhões de trabalhadoras domésticas no Brasil. Nós não queremos ser da família, nós não somos da família, não somos parentes dos nossos patrões. O que nós queremos é que os senhores reconheçam a importância dessa categoria pro Brasil na hora de votar pelos nossos direitos. Que os senhores levantem seus crachás a favor dos nossos direitos,  de leis que garantam salários, folgas, aí sim estarão reconhecendo as trabalhadoras domésticas, seu trabalho e sua condição de seres humanos”.

Conquistamos alguns direitos. A gente queria todos, mas a Benedita chamava a gente e recomendava: o Congresso não vai aprovar tudo, a gente tem que negociar o que é mais importante. Eles aprovaram salário, folga aos domingos, 13º salário. Agora, com a Lei 150, finalmente ampliamos, mas ainda falta.
 
 
 
 
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