Transformação através da dança

O Instituto Transformance é uma organização da Comunidade Cabelo Seco, no município paraense de Marabá, que busca sensibilizar a comunidade, através da arte e da cultura, para a importância de lutar pelos direitos das mulheres. Apoiado pelo Fundo Fale Sem Medo, o Transformance desenvolveu o projeto "Roupas ao Vento: dançando e cultivando energias vitais femininas", que mobilizou jovens mulheres e adolescentes na concepção e apresentação de um espetáculo de dança. Além disso, o projeto incluiu a criação de uma horta comunitária.
 
"O projeto acabou inspirando outras meninas, e hoje além do espetáculo temos um núcleo de jovens meninas coordenadoras nas áreas artísticas de música, composição musical e dança, e também envolvidas na horta", comemora Manoela Souza, responsável pelo projeto. 
 
"Receber o apoio do Fundo Fale Sem Medo foi extremamente importante não só pelo recurso financeiro, mas também porque esse prêmio abriu uma nova porta no nosso imaginário, com ele ampliamos muito a possibilidade de dialogar sobre o tema do cuidado às mulheres", diz Manoela.
 
 
A jovem Camylla Alves participa do núcleo jovem de coordenação do projeto. Camylla promove oficinas de dança com meninas de 4 a 13 anos e conta que o projeto foi um divisor de águas em sua vida: “A mulher que conhece a sua raiz ganha uma força que afeta sua atitude e personalidade, então ela vai ter coragem de dizer “não, para”, para se proteger, para não sofrer violência. Através do projeto, vi que a minha história é parecida com a de várias outras meninas da minha comunidade, e que buscar a minha identidade tinha a ver com entrar em contato com a identidade da comunidade também. Isso foi abrindo várias portas: comecei a pesquisar sobre as mulheres locais, sobre nossa raiz e nossa identidade afrodescendente e passei a afirmar isso para mim e para o povo daqui.
 
A partir dos novos conhecimentos, Camylla produziu um espetáculo de dança que emociona as moradoras da região: "Na nossa companhia da dança realizamos então o espetáculo Raízes e Antenas, que trata das mulheres, da violência doméstica e da violência contra a criança. Toda vez que nos apresentamos, tocamos muito mais as mulheres, porque estamos falando delas e de sua realidade. Muitas choram, querem falar sobre suas histórias depois do espetáculo. Tem uma parte, por exemplo, que representa uma mulher grávida e outra que mostra uma mulher cansada, os dias passando rápido e sempre iguais. Acho que isso afeta as mulheres porque é a situação de quase todas: trabalhar muito todo dia, e o marido chegar bêbado e querer bater, querer violentar..."
 
Para Camylla, o projeto traz novas perspectivas para as meninas e jovens da cidade: "Quando eu era mais nova e ainda não sabia o que queria ser quando crescesse, não pensava em ser dançarina, ter isso como trabalho e modo de vida. Não conhecia a minha própria raiz, por isso não sabia como eu ia engrenar minha vida, construir meu futuro. A partir do projeto encontrei minha raiz e também meu papel na comunidade: tive força para me defender e defender as outras mulheres também. Depois disso, passei por uma situação de violência sexual com um ex-namorado meu. Ele me pediu uma foto em que eu aparecesse nua e, por gostar muito dele, enviei. Isso acabou se espalhando pela cidade toda. Foi quando eu estava viajando, não estava na cidade, então foi ainda pior, porque eu soube disso de longe. Quando eu cheguei recebi muitas críticas, muitos olhares, mas eu estava forte, estava segura do que eu fiz. A coragem que o projeto me trouxe me permitiu lidar muito bem com essa situação. Tive muitas reuniões com a Manoela, coordenadora do projeto, e fui na Delegacia da Mulher prestar queixa. É muito importante a mulher buscar proteção assim que se perceber como alvo de violência. Aqui na comunidade sei que outras meninas passaram por isso e tenho tentado ajuda-las o máximo possível. Acho que as aulas de dança fortalecem as meninas: elas também ainda não sabem o que podem ser na vida, o quanto podem fazer. Eu sou uma espécie de espelho para elas, mostrando que elas podem ser muitas coisas no futuro. Com a dança elas ganham chances de crescer, além disso faz bem para o corpo e para a saúde".