Protagonismo de Preta

 
O Balé das Iyabás é um grupo cultural que, desde 2012, assumiu como missão contribuir para o fortalecimento e empoderamento  de mulheres negras. Formado por Ana Flávia Vieira, Ludmilla Almeida e Sinara Rúbia, o grupo une arte, discussão sobre raça e feminismo, e promove a conscientização através de dinâmicas de interações  - as chamadas Vivências do Balé - que envolvem a mitologia das orixás femininas, com dança e muitas trocas.
 
"O nosso principal objetivo é contribuir para o fortalecimento das mulheres, realizando oficinas, narrativas de histórias e trabalhando com o corpo através da dança afro e da gestualidade", explica a instrutora de arte e cultura do grupo, Sinara Rúbia.
 
O grupo realizou o projeto "Protagonismo de Preta" com apoio do Fundo Fale Sem Medo. O objetivo principal do projeto foi transformar as Vivências do Balé em um espaço de debates sobre a violência doméstica e de reflexão sobre como as diferenças formas de violência afetam as mulheres negras. 
 
Para as militantes artivistas do grupo, o objetivo foi alcançado: "Ao longo das vivências, acompanhamos mulheres que criaram empreendimentos inspirados no conceito do nosso trabalho, bem como mulheres que identificam nossas vivências como espaços que contribuem com a manutenção de seus empreendimentos. Observamos mulheres que conseguem compreender o ciclo de violência que se encontram, ampliando a compreensão dos diversos tipos de violência que configuram tanto a violência doméstica, como a violência que ocorre em outros espaços. Colaboramos com as questões referentes à identidade negra, permitindo a diversas mulheres o despertar de novos olhares sobre seus corpos, cabelos e história. Além disso, temos vários depoimentos de mulheres que não só contam suas histórias pelo Facebook ao nos procurar, como levam suas filhas; ou filhas que levam suas mães, nos mostrando que nosso projeto já consegue atingir diferentes faixas etárias", conta Sinara.
 
O projeto Protagonismo de Preta incluiu vivências com oficinas de dança, palestras e debates no Centro Cultural Laurinda Santos Lobo, em Santa Teresa (RJ), em favelas cariocas, no abrigo do governo onde residem mulheres vítimas de violência doméstica e também em Salvador (BA).
As Vivências foram experiências marcantes para as beneficiadas. O "Com o Balé das Iyabás vivi uma tarde ímpar! A Vivência é sempre repleta de experiências ricas e empoderadoras! A cada encontro notamos mulheres e suas famílias sendo transformadas", diz Andréa Lopes. Carla Felizardo também aprovou a experiência: "A energia é muito boa. As Vivências trouxeram papos ótimos com convidadas, uma super troca de ideias sobre o protagonismo da mulher negra na mitologia africana, que desconstrói a representação mais comum da realidade da mulher negra dos dias hoje. E ainda tem um balé aquecido que coloca todo mundo pra suar!"
 
 
Para a jovem Karina Vieira, as vivências foram transformadoras: "Quando me descobri mulher negra, uma das maiores dificuldades que enfrentei (e posso dizer que ainda enfrento) foi o reconhecimento da potência do meu corpo. Sempre tive problemas em me expôr e colocar o meu corpo à frente. O Balé das Iyabás me apresentou uma nova vivência: o aprendizado, o estudo, o reconhecimento do lugar que habito. Pude me sentir, tocar, conhecer e começar a perceber o lugar que o meu corpo, esse meu corpo preto, ocupa. Explorar, conhecer os limites e não sentir vergonha dos movimentos, da fluidez e das possibilidades desse corpo. Pude ocupar o mesmo espaço com outras mulheres pretas, trocar conhecimento, experimentar um sentido de comunidade, identificação e sensação de pertencimento. Visibilidade e representatividade são importantes: quanto mais eu me vejo, quanto mais eu me sinto representada, menos o meu corpo ocupa um lugar estranho pra mim. É preciso que cada vez mais mulheres conheçam esse projeto incrível".
 
"O reconhecimento da própria potência é o primeiro passo para romper situações de violência, acredita a jovem de 31 anos: "É através do empoderamento e da vivência com outras mulheres negras, o que o projeto proporciona, que fica possível que as mulheres que sofrem ou já sofreram algum tipo de violência percebam outras portas e possibilidades para sair ou procurar ajuda e não virar mais uma nas estatísticas. E é empoderando uma mulher negra que abrimos caminho para que todas se empoderem também", diz Karina.
 
O apoio do Fundo Fale Sem Medo foi decisivo para que o projeto tivesse maior impacto e alcance: "O recurso financeiro recebido neste XIX concurso do Fundo Elas foi fundamental para a realização de nossas atividades. Pudemos custear grande parte dos nossos gastos referentes a cada Vivência do projeto, o que nos possibilitou ampliar, expandir e qualificar nosso trabalho. Com o recurso recebido, pudemos realizar um número maior de Vivências, fortalecendo, esclarecendo (ou enegrecendo) e empoderando cada vez mais mulheres e consequentemente, nos fortalecendo enquanto grupo", conclui Sinara.
 
Assista alguns momentos das Vivências do Balé que Grupo Cultural Balé das Iyabás realizou com o projeto Protagonismo de Preta e acompanhe o grupo pelo Facebook: