Tecer redes e costurar afetos entres costureiras da Grande Florianópolis - Elas na Moda

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Tecer redes e costurar afetos entres costureiras da Grande Florianópolis

04/09/2020


O projeto é Tecendo Redes de Fortalecimento Feminino: Organização Política e Autonomia de Mulheres Costureiras da Grande Florianópolis, em Santa Catarina, realizado pelo Abacateiro Instituto De Pesquisa e Formação, visa contribuir para uma autonomia política e, portanto, melhorias nas condições de trabalho e qualidade de vida das costureiras da região, na medida em que se apropriam de direitos trabalhistas, seguranças, saúde, cuidados, reconhecimento de si e elevação da autoestima. Para alcançar o objetivo, o projeto apoiado pelo ELAS e Laudes Foundation investe no fortalecimento de relacionamentos interpessoais, fortalecimento de economia junto a sua comunidade, formação política e em direitos, formação de coletivos e lideranças para o fortalecimento da sua atuação cidadã.

Uma das coordenadoras, Juliana Cavilha, conta que para chegar às costureiras, foram de casa em casa em busca dessas mulheres que trabalham em suas residências, na informalidade: “Onde tinha plaquinha a gente entrava”. Buscaram também as escolas de costura do SESC, SENAC, e através dessas escolas encontraram grupo muito diferente – de mulheres jovens, artesãs, formadas em direito, moda, etc. O encontro entre esses dois públicos possibilitou uma troca importante entre elas.

O I Encontro Saúde e Condições de trabalho, ocorrido em março de 2020, trouxe ainda atividades de consciência corporal atrelada ao trabalho do cotidiano, com educação postural cervical, inclinação da cabeça, altura dos braços em relação a bancada, assim como a observação da posição e altura de suas cadeiras e bancadas de trabalho. Pensar sobre o tempo de trabalho, e as necessárias pausas para reequilibrar o corpo e evitar danos de excesso de carga nas suas articulações. (Foto 1 – à direita)

O projeto fomentou práticas de cuidados com seus corpos, com a visita de uma educadora física especialista em condições de trabalho aos ateliês de costura para medir a altura das bancadas de trabalho, verificar o processo de inclinação da cervical, observar a mobilidade do quadril e braços durante o trabalho com a máquina de costura, movimento das pernas e desnível com a pedaleira e tantas outras observações. Tais observações fomentaram a produção de uma oficina elaborada pela educadora física, exclusivamente voltada para o trabalho da mulher costureira, posturas, vícios, alongamentos, práticas de ergonomia.

Com o início da pandemia, as atividades precisaram ser repensadas e transferidas para o mundo virtual. Para isso, contaram com a ajuda de uma voluntária, organizaram uma reunião e fizeram um tutorial para usar a plataforma, de forma que nenhuma mulher ficasse de fora. Fizeram reunião sobre violência contra a mulher, receberam orientação para auxilio, cesta básica... E para se conhecerem melhor, começaram a mandar fotos dos seus ateliês. (Foto 3 – ao centro)

Os temas das reuniões semanais são decididos pelo grupo, a partir de um questionário respondido pelas costureiras. Juliana Cavilha conta que “Esse grupo se reinventou e quer formação: curso, montar ateliês, educação financeira, ética, preço, luz, bobina, tecido, o corpo. ” (Foto 4 – à esquerda)

A palestra sobre corpo e cuidados com a postura (doenças ocupacionais) continuou online e a parceria com o Projeto Ramá, também apoiado pelo Edital ELAS na Moda e Sem Violência, trouxe outras possibilidades de geração de renda.

O objetivo é a continuidade depois do fim do projeto e, para isso, elas estão criando uma rede.

“O processo cuidadoso para criar relações entre elas, a partir do afeto, respeito e orientação, visa o reconhecimento de suas trajetórias de trabalho profissional. Quando oferecemos a estas mulheres uma escuta que ordena e valoriza seu lugar social e político de trabalhadora na sociedade, alcançamos este objetivo ao longo do processo. ”, afirma Juliana Cavilha.

Para as coordenadoras, o ELAS permitiu a visibilidade de uma camada de trabalhadoras que vive à periferia econômica e social. Essas trabalhadoras encontram neste projeto um lugar social e político, uma vez que se confrontam com técnicas de cuidado e atividades pensadas exclusivamente para atuação de sua atividade laboral. Dessa maneira são incluídas social e politicamente em um campo de visibilidade que lhes permite atuar enquanto cidadãs, mulheres e trabalhadoras.