Protagonistas de moda autoral afro-brasileira - Elas na Moda

Notícias

Protagonistas de moda autoral afro-brasileira

15/09/2020


O projeto Por Uma Moda Autoral Afro-brasileira, da REAFRO/RS (Associação afro-empreendedorismo do Rio Grande do Sul) se propôs a qualificar produtoras de moda autoral afro-brasileira a partir de encontros semanais com oficinas sobre cadeia da moda, autocuidado e finanças com especialistas de cada área.

A iniciativa proporcionou a ampliação da visão sobre moda afro-brasileira, o entendimento do valor da sua mão-de-obra e o poder de negociação com seus parceiros de trabalho, resultando na melhoria da autoestima dessas mulheres negras profissionais da cadeia de moda.

Elas se perceberam protagonistas do pensar criativo e entenderam que a inspiração para a coleção de roupas e acessórios parte da história da sua ancestralidade negra - a moda autoral afro-brasileira não se resume apenas a tecidos africanos. O replanejamento e novos modelos de negócio para o mercado de moda começaram a acontecer a partir do conhecimento que adquiriram no projeto: escolher um tema para coleção, pesquisa do tema, pesquisa mercado, o processo de desenvolvimento do produto e a organização das equipes de trabalho para a confecção do produto, gestão do tempo, precificação, vendas, empreendedorismo, etc.

Mas o projeto não parou por aí. Tão importante quanto a gestão do negócio, é a mulher que o está gerindo. O espaço de autocuidado foi fundamental para que elas saíssem fortalecidas. Nos encontros de autocuidado da mulher negra, a questão de gênero era abordada com recorte étnico-racial. Elas utilizaram esse espaço para falar de suas questões cotidianas, de sua relação com o projeto e com os desejos para o futuro, sempre com uma escuta mútua.

Reflexões sobre situações de violência ou de enfrentamento a ela surgiram com frequência nesses encontros, sendo desnaturalizadas. O acompanhamento de uma psicóloga foi fundamental, pois as levou questionar o seu meio e a gerar algumas mudanças dentro do seu cenário. O depoimento de uma beneficiária que não quis se identificar comprova isso: “ Talvez, de todo o curso, o que mais me impactou foi descobrir que aquela obrigação que eu sentia de ser sempre uma fortaleza, sempre estar pronta para dizer sim, é reflexo de uma sociedade onde o racismo estrutural é bem presente. Consegui entender que a carga pesada demais que carregava sozinha podia ser dividida, e dividi com minhas companheiras de curso quando vi que não estava sozinha. Chorei muito nesses encontros, mas não chorei sozinha. ”

A sororidade entre as participantes do projeto gerou uma rede de apoio com o intuito de se organizarem coletivamente para a continuidade ao autocuidado da mulher negra e à troca de conhecimento entre elas para ajudar no gerenciamento e no crescimento de cada negócio. A ideia é desenvolver essa rede assim que passar a pandemia. Além disso, elas têm planos de organizar um grupo para criar uma marca de roupas e acessórios em que deixem de ser prestadores de serviço a outras marcas e empresas e passem a ser protagonistas da sua produção.

Com o isolamento social imposto pela pandemia, as atividades presenciais foram transferidas para o ambiente virtual. As salas de reunião virtual com mulheres negras discutiram Acolhimento Virtual, Covid-19 - leis, medidas provisórias e demais normativas, Gestão de Tempo, Autocuidado para mulher Negra, Desenvolvimento de Coleção (entrega dos insumos para confecção e precificação do produto), Finanças, Vendas, Improdutividade, Empreendedorismo/Modelo de Negócios.

Uma das estratégias adotadas para seguir com o projeto virtualmente foi garantir subsídio para a internet de cada beneficiária. Conseguiram ainda o apoio do Curso de Comunicação Social/Ulbra-Canoas (Universidade Luterana do Rio Grande do Sul), que cedeu a plataforma para gravar os encontros on-line sem que isso representasse mais custo para o projeto e disponibilizou o material para as beneficiárias assistirem quantas vezes fossem necessárias para o aprendizado de cada uma delas.

Em Porto Alegre, os afroempreendedores de venda de roupas e acessórios passaram a vender por loja virtual, WhatsApp e Instagram, entretanto, por não serem produtos essenciais, ficaram com estoque parado e tiveram uma queda brusca em seus rendimentos e começaram a produzir máscaras para vender nesse momento tão delicado.

O projeto apoiado pelo ELAS e Laudes Foundation no Edital ELAS na Moda e Sem Violência distribuiu máscaras em diversos bairros de Porto Alegre e na região metropolitana - Para a distribuição das máscaras fizemos parceria com a Paróquia do bairro Morro Santana e com líderes comunitários que estavam distribuindo cestas básicas dentro da comunidade.

A partir do encontro on-line de Gestão de Tempo relacionado com as temáticas discutidas nos encontros de autocuidado, as beneficiárias começaram a cuidar mais do tempo das atividades desenvolvidas ao longo do dia e da semana, não só de trabalho, mas das tarefas de casa também. Passaram a exigir melhores condições e a permitirem-se do “nadismo" - um dia só para elas para não fazer nada. Também, passaram a negociar com o cliente a sua hora trabalhada por quantidade de peças produzidas ou sob medida. 

A REAFRO-RS mudou seu nome para ODABÁ – Associação de Afroempreendedorismo, mas o compromisso com a moda justa e sustentável permanece o mesmo.