Mulheres negras desfilam empoderamento e cuidado - Elas na Moda

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Mulheres negras desfilam empoderamento e cuidado

04/08/2020


O Projeto Obirin, da Associação de Arte e Cultura Negra Ará Dudu, surgiu com a proposta de promover o fortalecimento de uma rede de jovens e mulheres, trazendo a moda como alternativa para enfrentar os contextos de vulnerabilidade, explorações e abusos sofridos, sobretudo pelas mulheres negras. A ideia era criar oportunidades de trabalho, fomentar e estimular a produção de moda que fizesse uso de fibras naturais e tecidos alternativos, reaproveitando tecidos excedentes.

A pauta da moda, além de contribuir para a afirmação da identidade e cultura afro-brasileira e para a geração de trabalho e renda, é um canal para discutir a violência contra as mulheres no município de Santa Maria, no Rio Grande do Sul – local de execução do projeto apoiado pelo Edital ELAS na Moda e Sem Violência, promovido pelo Fundo ELAS em parceria com a Laudes Foundation.

A adesão à Campanha 50-50 da ONU, que busca equidade entre mulheres e homens, trouxe retornos positivos como ampliação de espaços de divulgação e comercialização de produtos. Foi importante também para inserir a pauta da mulher negra na Força Tarefa de Combate ao Feminicídio no Estado do Rio Grande do Sul como uma forma de pautar também o racismo estrutural e o machismo no estado, já que de acordo com o Atlas de Violência 2019, realizado pelo IPEA (Instituto de Políticas Econômicas Aplicadas), as mulheres negras aparecem como 75% das vítimas de feminicídio.

Quando veio a pandemia do coronavírus, mais do que adequar suas atividades presenciais a aulas gravadas e reuniões online, o projeto se deparou com o agravamento da fome, do desemprego, o frio e o aumento da violência contra as mulheres.

 

Com a flexibilização dos recursos para atender às necessidades das mulheres, a Associação de Arte e Cultura Negra Ará Dudu pode se reorganizar diante do contexto: para proteger a população, o grupo doou cerca 300 cestas básicas e confeccionou e doou mais de 2 mil máscaras (também comercializaram máscaras e parte da renda da comercialização foi revertida para as mulheres artesãs que integram o projeto); para enfrentar o frio e gerar renda, através da orientação da Presidenta da Associação, Carmem Lucia (Baiana) um grupo iniciou a confecção de chinelos de pelúcia.

 

E para enfrentar o aumento da violência – que traz também um aumento da demanda por apoio psicológico - advogadas e psicólogas se uniram para atender a essas mulheres. Isadora Bispo, coordenadora executiva do projeto, conta que a maioria das mulheres está sendo atendida à distância, mas aquelas que não têm internet não podem ficar desamparadas – aí elas ligam de uma por uma para dar apoio e, se for o caso, vão até suas casas. A equipe está produzindo vídeos para orientar as denúncias e encaminhamentos nos casos de violência.

“A gente vai sair melhor do que entrou - pela união e criatividade na sobrevivência. Nosso instinto de cuidar umas das outras cresceu”, afirma Isadora Bispo.

O grupo vem se organizando enquanto empreendedoras, conta com apoio da Rede Acolhe Mulher da Universidade Federal de Santa Maria (Pelo Fórum de Combate ao Feminicídio), vem aprendendo com os desafios e as instrutoras, além das aulas online, confeccionaram modelos para um desfile online lançado no dia 25 de julho – Dia da Mulher Negra Latino-americana e Caribenha.

No vídeo, além do desfile, você vai conhecer um pouco mais do Projeto Obririn, da Associação de Arte e Cultura Negra Ará Dudu. Elas receberam até um recado de apoio e estímulo de Deise Nunes – empresária de moda e a primeira mulher negra a vencer o concurso de Miss Brasil (1986). Assista clicando aqui.