Moda justa para todas nós! - Elas na Moda

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Moda justa para todas nós!

17/09/2020


Quando pensamos em moda, pensamos em roupas, acessórios, passarelas, mas pouca gente se dá conta que é do campo que vem boa parte dos tecidos. Uma moda justa e sustentável precisa estar atenta a todos os elos dessa cadeia. Nesse sentido, a AEPAGO (Associação Estadual dos/as Pequenos/as Agricultores/as de Goiás) realizou o projeto Por nós, todas nós!

O objetivo foi desenvolver ações com as mulheres camponesas a partir de encontros/oficinas, onde elas puderam refletir sobre as relações opressoras que vivenciam, mostrar a realidade de lutas e enfrentamentos no campo brasileiro, e, a partir disso, discutir estratégias de superação das diversas formas de violência contra as mulheres.

No meio rural, esses espaços de diálogo sobre suas realidades não existiam. Com o projeto, as mulheres camponesas, além de refletir, estão se organizando para mudar essa realidade. Muitas delas não possuem renda própria, apesar de contribuírem diretamente para a renda familiar; as mulheres do campo que fazem parte do plantio e colheita do algodão não têm recursos para suas iniciativas.

Foram realizadas 5 oficinas e 1 encontro de articulação para que elas pudessem conhecer estratégias e ferramentas de denúncia. Em cada uma dessas oficinas foram criados momentos para trocas de experiências, vivências, sentimentos, sonhos, solidariedade, escuta e acolhimento - dentro das atividades e pós-atividades.

Nos encontros, elas perceberam possibilidades de geração de renda a partir de processos criativos solidários. Cinco mulheres do grupo tiveram seus trabalhos reconhecidos e estão liderando processos de produção de algodão sustentável e empreendimentos engajados na cadeia de valor do algodão sustentável.

A aproximação entre mulheres camponesas e mulheres urbanas abriu também o diálogo sobre a realidade das mulheres trans e lésbicas. Essa aproximação começou antes do início da pandemia e se fortaleceu devido ao contexto das violências sofridas por todas, e agravadas com o isolamento social.

A pandemia da Covid-19 trouxe diversas consequências para a AEPAGO, que precisou se reorganizar completamente, pois todas as ações e atividades que realizava eram presenciais: cursos, capacitações, organização de grupos de mulheres para produzirem e buscar formas de comercializar seus produtos, fosse através do contato direto com o consumidor ou em feiras e outras atividades. Assim como em todo o mundo, as atividades migraram para o universo virtual, mas não se pode esquecer que grande parte das famílias no campo têm dificuldade de acesso à internet.

A AEPAGO atua em comunidades rurais do estado de Goiás. O isolamento social somado às dificuldades econômicas das famílias nas cidades reduziu muito a comercialização de alimentos, especialmente por não se poder realizar as feiras locais. Como a produção é perecível, grande parte foi perdida. A consequência foi uma redução drástica também na renda dos grupos de mulheres e das famílias camponesas.

A flexibilização no uso dos recursos do projeto possibilitada pelo ELAS permitiu a compra de alimentos produzidos pelos grupos de mulheres camponesas, que foram doados a famílias em situação de vulnerabilidade econômica no meio urbano. Assim, as famílias no campo conseguiram comercializar parte dos alimentos que estavam se perdendo e ter alguma renda. A campanha de solidariedade beneficiou famílias nos municípios de Divinópolis, Buritinópolis, Mambaí, Catalão, Ouvidor, Jaraguá, Uruana, Santa Terezinha, Crixás, Silvania, Goiânia, além de famílias camponesas e das periferias.

Rosilene, uma das integrantes do projeto, conta: “Com a doação, a gente saiu e encontrou pessoas aqui, nossas vizinhas, que vivem numa situação muito difícil. Tinha um homem morando sozinho que sofreu um acidente e estava com a perna quebrada, sem família, sem ninguém, e nem tinha comida mais. Quando nós chegamos ele chorou de alegria... isso mexeu muito com a gente. ”

A preocupação agora é com a interiorização da pandemia, pois a estrutura de atendimento médico e hospitalar é precária e as pessoas no campo tem pouco ou quase nenhum acesso às informações de proteção. A AEPAGO está levando informações e orientado moradores desses locais mais remotos.

E mesmo com todas as dificuldades de acesso à internet, elas conseguiram garantir um espaço de diálogo entre mulheres criando um grupo para seguirem conversando pelo celular. E ainda fizeram uma live para debater e evidenciar os impactos da pandemia na vida das mulheres.

As coordenadoras do projeto, Jéssica Brito e Tabata Neves contam que o apoio do ELAS e da Laudes Foudation, a partir do Edital ELAS na Moda e Sem Violência, possibilitou o fortalecimento de redes de solidariedade para as mulheres camponesas e parcerias com outras organizações populares de direitos humanos e de direito das mulheres, contra o racismo, além da inserção na pauta do reconhecimento, respeito e diálogo com outras mulheres, como por exemplo com as mulheres trans.