Laboratório Arremate - Costurando resistências e memórias - Elas na Moda

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Laboratório Arremate - Costurando resistências e memórias

04/06/2020


O Lab Arremate é uma costura entre gerações de mulheres feita na periferia do Rio de Janeiro”, conta a coordenadora do projeto, Lidi de Oliveira.  O objetivo do Laboratório Arremate - Costurando resistências e memórias – um dos projetos selecionados no Edital ELAS na Moda e Sem Violência promovido pelo ELAS em parceria com a Laudes Foundation - é construir a justiça social, o bem viver, a vida criativa na Baixada Fluminense, conectando costureiras com outras comunidades.

A partir da promoção de círculos de diálogos entre essas mulheres sobre autocuidado, racismo, violência doméstica, o projeto está produzindo uma web série sobre o processo criativo das costureiras da Baixada Fluminense. O grupo acredita que visibilizar esse trabalho é uma forma de colaborar com uma moda sem opressão e contribuir para o não apagamento da história coletiva de gerações de mulheres.

A área de atuação do projeto é uma região periférica da cidade de Duque de Caxias, no Rio de Janeiro, com grande concentração de mulheres que costuram informalmente, e está no ranking de registro de violência doméstica contra mulheres. Além da falta de mobilidade urbana (muitas costureiras nem saem de seus ateliês, pois vivem em função do trabalho), faltam aparelhos do Estado que incentivem acesso à cultura, formação e o acesso a direitos básicos.

Apesar da dificuldade em mobilizá-las, uma rede afetiva que vem sendo construída entre elas possibilitou a realização de uma oficina. O encontro aconteceu em uma biblioteca comunitária, na zona rural de Duque de Caxias, onde foi possível refletir sobre costura, auto estima, condições de trabalho e costurar juntas. Aliás, uma peça confeccionada coletivamente que reflete sobre o assunto estará em exposição em um grande encontro final.

As atividades e as memórias das mulheres costureiras da Baixada Fluminense estão sendo documentadas, e em breve a web série será disponibilizada na internet para que todas as pessoas tenham acesso a esses saberes.

O projeto contribui para melhorias das condições de trabalho das mulheres inseridas na cadeia da moda. As costureiras já falam sobre o aumento da sua autoestima, da valorização do seu ofício. Umas delas, inclusive, mudou parte do seu ateliê, comprando cadeiras novas, ventilador, reformando parte do local para melhorar as condições de trabalho. Em seus depoimentos, elas identificam violências que passaram e observam. Relatam sobre a importância da troca sobre seus trabalhos, sobre suas vivências e as conexões entre elas. Algumas disseram que querem voltar a costurar e outras levaram suas filhas para a oficina

Os vídeos estão em fase de finalização da edição e serão compartilhados nas redes sociais. Entretanto, a pandemia do COVID 19 exigiu uma mudança na “costura” da web série. As aulas presenciais tiveram que ser adiadas, e a forma criativa encontrada para se conectar com mulheres de todo mundo para compartilhar esses saberes foi gravando, além trajetória de costureiras da Baixada Fluminense, uma série de vídeos explicando truques de criações em tecidos e ensinando técnicas de costura que podem ser feitas em casa.

Dentre as histórias documentadas, uma que merece destaque é da Dona Luiza, uma das criadoras do Lab Arremate. Ela, que veio do sertão do Ceará e hoje vive em Duque de Caxias, é costureira há mais de 40 anos. A partir do Elas na Moda e Sem Violência, a mestra da costura passou a refletir sobre seu trabalho/vida criativa e despertou para o ativismo dentro da moda.  Dona Luiza abriu o “baú” de memórias e compartilha vários truques de criação e seus saberes.


Durante o período de isolamento social imposto pela pandemia, a rede de mulheres que constroem o Laboratório Arremate confeccionou mais de mil máscaras que foram distribuídas em comunidades periféricas de Duque de Caxias e do município do Rio de Janeiro. A distribuição contou com a mobilização de mulheres lideranças dos locais e associações.

“Costurar” parcerias tem sido o forte do Lab Arremate. Para a coordenadora do projeto, Lidi de Oliveira, “ Uma das coisas mais preciosas que o Lab Arremate leva do Elas na Moda são as parceiras. Ganhamos uma grande família! Desde uma costura afetiva com Mãe Nilce/Ilê Omolú Oxum, com o Grupo Cultural Iyabás do Ilê, que estão na Baixada Fluminense (território que construímos ação) até o sertão do Ceará com Mucaúba. O quanto é transformador internamente e coletivamente. Um impacto que nos transforma e é tão real!

Na parceria com o projeto Guerreiras da Palha de Carnaúba, da Associação Mucaúba, o Laboratório Arremate foi até Cariré, no Ceará para colaborar com oficinas de costura / modelagem / criação. Lidi de Oliveira afirma que foi uma vivência que impactou positivamente os dois projetos.  O Lab Arremate fez parceria ainda com outros projetos do Edital ELAS na Moda e sem Violência, como GAMI - Grupo Afirmativo de Mulheres Independentes do Rio Grande do Norte, Abacateiro Instituto de Pesquisa e Formação, e CEMIR - Centro da Mulher Imigrante e Refugiada;

E Lidi de Oliveira faz questão de deixar um recado: “Quero agradecer toda a rede afetiva que vem costurando com o Lab Arremate. O apoio desse Edital colaborou de uma forma única nos caminhos do nosso grupo - desde o reconhecimento que tivemos na nossa cidade, o registro de memória das costureiras da nossa periferia, a conexão com grupos pelo país. Estamos vivendo um momento muito complexo com essa pandemia, e quem estiver lendo essas palavras tenha muita a certeza que há mulheres incríveis construindo mundos possíveis. Procure pelo site, veja os projetos que estão sendo apoiados, nos escreva, não fique sozinha, apoie os grupos que constroem o bem viver. E se cuide. ”