DASPU: moda pra mudar - Elas na Moda

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DASPU: moda pra mudar

14/09/2020


Natasha Lemos
Natasha Lemos
“Gente, isso é incrível! Eu nunca imaginaria estar num lugar cheio de gente me aplaudindo. Me senti forte e segura. Foi aí que eu agarrei com força e entrei no curso, me dediquei, me valorizei mais, e mostrei esse meu lado que eu tinha e eu posso fazer. Não tenho medo. Gosto muito, muito mesmo de fazer customização! Adoro moda! Aí tô conquistando muitas coisas que eu nunca imaginaria que ia conquistar: estudo, trabalho, esse último evento da DASPU. A DASPU fez a minha cabeça de tal maneira, que nem eu imaginaria que eu ia ter essa capacidade. ”

O depoimento de Natasha Lemos dá uma ideia do que foi o projeto “DASPU: moda pra mudar”. A DASPU é uma marca fundada há 15 anos pela ONG DAVIDA, que trabalha na defesa dos direitos das prostitutas, e o projeto envolveu mulheres prostitutas, pessoas trans e travestis no processo de criação, produção e apresentação da performance artística num desfile.

Bruna Pires, Lua Negra e Thassia Bragança
Bruna Pires, Lua Negra e Thassia Bragança
A proposta era fomentar processos de discussão e construção coletiva da moda e sua relação com as questões de gênero e sexualidade. Bruna Pires, outra integrante do projeto também conta o que mudou nela a partir de uma constatação: “A construção de roupa, a desconstrução de roupa, criação de novos modelitos tá na gênese da travesti, né? A gente sempre fez isso. Sem saber, nós sempre fomos estilistas. Está na nossa raiz do que é ser uma travesti – ser estilista, ser produtora da sua própria vestimenta. Desmistificou também um monte de coisa pra mim em relação a sexo, ao nosso sexo, sabe, ao nosso corpo visto como sexo. É isso que eu quero dizer. Eu amei ter participado!”

A ideia de desenvolver uma coleção em parceria com a Casa Florescer que incluísse no processo de criação e produção as travestis e pessoas trans para fortalecer a luta desses grupos e movimentos foi se materializando. 

Natasha Lemos
Foto de Sato do Brasil
O primeiro desfile DASPU realizado em janeiro desse ano no Festival Sem Censura, em parceria com a Kengawear, aproximou mais as mulheres trans do projeto. Além disso, estar em contato com outras mulheres trans atrizes, artistas, cantoras, deputadas contribuiu para o fortalecimento delas.

“Construir uma relação de confiança demanda tempo, afeto e compromisso. Nem todas têm habilidade e desejo para costura. Aproveitamos outras habilidades que cada uma tem (desenho, bordado, etc) para inserir atividades no projeto. Foi um desafio reestruturar algumas ações, ampliar e envolver outros profissionais. , conta a coordenadora do projeto, Elaine Bortolanza.

A construção coletiva e a criação da nova coleção trouxeram desconstruções de padrões da moda, e também a reflexão sobre como elas podem usar a moda para falar das violências relacionadas ao corpo trans.  Para Elaine Bortolanza, “O mercado da moda segue um padrão muito rígido relacionados às normas sexuais e de gênero que não inclui essa diversidade e multiplicidade de corpos. Pensar a moda é discutir gênero e o estigma de puta muito relacionado à violência contra a mulher. Em situações de violência contra a mulher, a gente escuta muito, “Ah, mas ela estava vestida daquele jeito”. Essa fala está totalmente relacionada ao estigma da puta e do que se espera do comportamento feminino. ”  Trabalhar moda com prostitutas, pessoas trans e travestis é mexer com essa estrutura do patriarcado.

As oficinas e o trabalho coletivo potencializaram aquelas que já tinham contato com o setor da moda, fazendo com que elas pudessem vislumbrar a experiência como uma oportunidade de trabalho.

Quem vê o resultado pode até achar que foi fácil, mas com a chegada da pandemia, os desafios só aumentaram. Muito do que estava previsto precisou ser adequado, pois eram encontros semanais com atividades de corte, costura e modelagem, coordenados por Vênus, estilista trans indicado por elas. Mas o acesso à internet para as atividades online dificultou muito o processo. Diante disso, outras pessoas foram incluídas. Uma delas foi Suzy Muniz, moradora da Casa Florescer que desenha, escreve poesia e conhece a linguagem artística. Além de conduzir o conceito da coleção nos ateliês de criação, Suzy trouxe uma reflexão crítica sobre o estigma de puta, a relação da moda com gênero e o corpo trans. Outras moradoras da Casa se somaram à equipe, cada uma trazendo seus conhecimentos e talentos.

Mas essa dificuldade acabou sendo “Um empurrão para a autonomia. Teve um auto reconhecimento, um reconhecimento de si, da trajetória, de todas as habilidades e conhecimentos ligados à moda ou áreas afins que elas já tinham, e que só foi possível a gente reconhecer quando estourou a pandemia e a gente teve que se reinventar. ”, conta Elaine Bortolanza. A flexibilização proporcionada pelo ELAS possibilitou que o recurso que iria para consultoras externas pudesse ser utilizado para pagar o trabalho delas.

Nos diversos depoimentos de integrantes do projeto, poder pensar a sua própria roupa, como você quer expressar sua identidade na roupa, a transição de gênero, roupas que foram importantes na experiência de cada uma, possibilitou o reconhecimento de si e a apropriação da potência de cada uma delas, relacionada à identidade de gênero travesti ou trans.  Fez toda diferença elas se sentirem parte de todo o processo e poderem colocar sua experiência para essa grande criação, que foi o “Desfile DASPU & Casa Florescer - coleção Traviarcado”.