Costurando para Resistência: comunidades de Terreiros fazendo estética de moda e enfrentamento à violência - Elas na Moda

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Costurando para Resistência: comunidades de Terreiros fazendo estética de moda e enfrentamento à violência

04/08/2020


O Ateliê Obínrín Odara, em São João de Meriti, na Baixada Fluminense, produz indumentárias e adereços afro-étnicos para fortalecer o empreendedorismo econômico das mulheres das comunidades de terreiro como estratégia de prevenção a situações de violência doméstica e familiar. A proposta do Ilê Omolu&Oxum é fortalecer o compromisso público das comunidades de terreiro na superação das situações de violência de gênero, violações de direitos e intolerância religiosa.

A Campanha Mulheres de Axé Mobilizadas pelo Fim da Violência Doméstica e Familiar no Estado do Rio de Janeiro conduzida pelo Ilê, por exemplo, aproxima as mulheres de terreiro às agendas de direitos empreendidas por organizações de mulheres negras, organizações de mulheres e feministas.

Desde o início do projeto apoiado pelo ELAS e Laudes Foundation através do Edital ELAS na Moda e Sem Violência, a produção e comercialização do Ateliê vem fortalecendo a cultura afro-brasileira e os saberes e as práticas desenvolvidas e preservadas nas comunidades de terreiro. Com o início da pandemia, as atividades presenciais - seja com as mulheres do terreiro, seja em eventos para um público maior – precisaram ser suspensas ou readequadas.

“A minha tradição religiosa é de acolhimento. Estamos sempre juntos: abraçando, beijando, juntas nas festividades... As lives têm ajudado muito a nos aproximar. ”, conta Mãe Nilce de Iansã, coordenadora do projeto. De acolhimento e resistência – as costureiras se recusaram a parar as atividades e continuam a fabricar as peças e as máscaras em suas próprias residências. Uma das integrantes do grupo, uma senhora de 77 anos, perdeu o marido de Covid e disse “Agora mesmo é que eu não posso parar! ”. Ela continua fazendo as máscaras com tecidos africanos e ainda manda fotos do que está fazendo.

Foram fabricadas e distribuídas mais de 1.100 máscaras. O Ilê também distribuiu uma tonelada de cestas básicas e kit higiênico contendo álcool em gel, creme dental, escovas de dentes. A partir dessa mobilização vieram outras doações que são entregues a quem está passando necessidade, independente de religião, raça ou orientação sexual.

A casa já tem tradição de arrecadar doações e vai seguir tentando mais cestas básicas, pois os impactos da pandemia continuam e as pessoas têm expectativa das doações seguirem. “A dor une. Minha luta é para que todas as casas de Axé (Comunidade tradicional de terreiro) sigam esse exemplo. ” Para além das doações emergenciais da pandemia, o Ilê Omolu&Oxum também doa turbantes para as pacientes do INCA em tratamento de câncer.

Mãe Nilce, que também é coordenadora da RENAFRO (Rede Nacional de Religiões Afro-Brasileiras e Saúde) defende a importância da questão da violência doméstica estar na pauta dos terreiros.

Nesse momento, com a flexibilização no uso dos recursos do projeto por causa da pandemia, além de participar de lives inter-religiosas, ela está gravando vídeos (e lançando a cada domingo) sobre culinária brasileira, aproveitando todas as oportunidades para falar de geração de renda e enfrentamento à violência contra a mulher, ao racismo e à homofobia. Acesse aqui: https://www.youtube.com/watch?v=9kLT-X_T5NM&feature=youtu.be

 

E as indumentárias e adereços afro-étnicos produzidos pelo Ateliê Obínrín Odara já tem espaço garantido na Feira Expo-religião prevista para novembro deste ano.