Costurando afetos com as mulheres da Maré - Elas na Moda

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Costurando afetos com as mulheres da Maré

14/05/2020


Organizar mulheres que já trabalham no ramo da moda e produzem de modo independente e criar um catálogo de serviços de moda no território do Complexo da Maré, no Rio de Janeiro,e, ao mesmo tempo, identificar as demandas de violência doméstica ou violências em ambiente de trabalho e dar os devidos encaminhamentos.

Essa era a proposta inicial do projeto Costurando Afetos com as Mulheres da Maré, da Coletiva Resistência Lésbica da Maré. O desafio, que já era grande, foi se mostrando maior e mais complexo à medida que a Coletiva iniciou os contatos com as costureiras. A partir de metodologias participativas para o autocuidado e espaço onde as mulheres se sentissem seguras, demandas que não estavam previstas começaram a surgir, como, por exemplo, a de um curso de defesa pessoal para mulheres. Como ferramenta imediata de incidência na violência de gênero e também como uma forma de cuidado de autocuidado, a reivindicação foi acolhida e inserida no calendário do projeto.

Outra demanda prontamente abraçada pelo projeto foi o mapeamento afetivo das lésbicas dentro do Complexo da Maré. Uma escuta atenta, acolhedora e o fato da Coletiva Resistência Lésbica da Maré ser o único grupo somente de lésbicas no território atendido foi motivo suficiente para a decisão. Um fator que foi levado em conta é que todos os outros grupos são mistos.

As atividades, que começaram com conversas individuais nas residências, ateliês e facções de costura, enfrentaram algumas dificuldades nos três primeiros meses. Ocorre que novembro, dezembro e janeiro são meses de muito movimento para as costureiras da Maré. Nesse período elas produzem uniformes escolares e roupas de carnaval. Apesar do interesse nas Rodas de Conversa e Vivências, elas alegavam que se não costuram, não ganham. O projeto, então, adaptou a estratégia e seguiu com a sensibilização.

O que era um grupo de apenas cinco mulheres, conta hoje com 20 mulheres em diálogo direto com a equipe. Elas, que não se conheciam, começam a formar uma rede entre elas e o catálogo de moda já está sendo rascunhado.

Uma das violências de gênero identificadas nas idas às casas das costureiras é a exploração da sua mão de obra. Com a invisibilidade do trabalho, não há o devido reconhecimento nem remuneração justa.

A baixa escolaridade de grande parte das mulheres do Complexo da Maré dificulta o acesso à informação e aos seus direitos.  Por isso, o projeto informa as costureiras sobre direitos trabalhistas e orienta como acessar a rede de violência contra as mulheres e a rede SUS.

A saúde mental dessas mulheres também é motivo de cuidado e atenção por parte do projeto, pois, além da atenção à questão ser pouca ou nenhuma, os serviços de saúde mental no território são deficientes. A Coletiva Resistência Lésbica da Maré iniciou os grupos de acolhimento terapêutico em equipamentos de referência da Maré, como o Espaço Casulo e CEASM.

Assim como as mulheres atendidas perceberam a importância das trocas, as coordenadoras do projeto também. Para elas, a troca de metodologias com grupos que já executam projetos voltados exclusivamente para moda fortalece a iniciativa. Na avaliação da coordenadora Dayana Gusmão da Silva, o II Diálogo ELAS na Moda e Sem Violência, promovido pelo ELAS e Laudes Foundation ,“Foi de extrema importância, pois conhecemos outras instituições aprovadas no mesmo edital e criamos vínculos para além do projeto - inclusive com a formação de um grupo de WhatsApp, no qual trocamos experiências e dificuldades.”

Neste momento, as atividades presenciais estão interrompidas por causa da pandemia do Covid-19, mas um grande encontro para o fim do projeto está em construção.

O mapeamento das lésbicas da Maré, mesmo não sendo o foco principal do projeto, já aconteceu em 9 favelas do Complexo. Este mapeamento anda em paralelo com o reconhecimento das costureiras.

E enquanto as atividades presenciais estão suspensas, a Coletiva Resistência Lésbica da Maré, fazendo jus ao nome do projeto, segue costurando afetos – elas produziram máscaras de proteção ao COVID-19 que foram distribuídas na comunidade, em parceria com grupos locais. Cuidando de si para cuidar das outras.