Ancestralidade das Orixás Femininas no enfrentamento à violência contra a mulher - Elas na Moda

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Ancestralidade das Orixás Femininas no enfrentamento à violência contra a mulher

28/04/2020


Resgatar a ancestralidade do vestuário das Orixás femininas para impulsionar o debate sobre protagonismo, autoestima e combate às diferentes formas de violência, principalmente violência psicológica. Este é o objetivo do projeto A Vestimenta Ancestral das Iyabás do Candomblé.

A iniciativa é do Grupo Cultural Iyabás do Ilê, do município de Belford Roxo, na Baixada Fluminense. O projeto, apoiado pelo ELAS e Laudes Foundation no edital ELAS na Moda e Sem Violência, parte das lendas das Orixás femininas – as Iyabás - e de suas histórias de liderança e superação para resgatar o legado ancestral das vestimentas religiosas até os dias atuais, estabelecendo uma relação com os tipos de violência contra a mulher enfrentados atualmente.

Para a coordenadora Licia Cristina Costa de Souza “O projeto vem desempenhando um papel fundamental no desenvolvimento do potencial da comunidade e em pautar o tema da violência contra a mulher, nunca antes debatido neste contexto da ancestralidade”.

A proposta de fortalecer a autoestima das mulheres de axé passa pela valorização de seus trabalhos nas áreas de costura, empreendedorismo, artesanato, ampliando as perspectivas de ação e promovendo capacitação. A iniciativa vem despertando interesse de participantes do entorno da comunidade religiosa que desejam cursos profissionalizantes na área da moda.

Desde o início das oficinas, em dezembro de 2019, 10 participantes do projeto iniciaram atividades empreendedoras – 6 na confecção de roupas para terreiros de Candomblé e 4 Mulheres de Terreiro iniciaram a produção artesanal de fios de conta e acessórios de Orixá para geração de renda.

As oficinas – Mar, Cachoeira e Fogo

O Brasil é o país com mais descendentes africanos fora da África, totalizando o contingente de cerca de 60% da população negra no país, de acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

As comidas, músicas e religiões são algumas das heranças africanas no Brasil. O Candomblé e a Umbanda são as religiões afro-brasileiras mais conhecidas, mas cada uma delas possui várias ramificações, dependendo de onde está inserida geograficamente.

O Candomblé brasileiro possui as suas particularidades e o axó (roupa) tem uma representação muito grande, pois fala de um simbolismo ético e moral. A pesquisa das vestimentas das Iyabás possibilitou a construção e a utilização nas oficinas de um guia de orientação de vestimentas para os integrantes da comunidade que pode ser acessado no site: www.iyabasdoile.com.br

As oficinas Mar: A grande Mãe Iemanjá, realizada em dezembro de 2019, Cachoeira: A altivez de Oxum, em janeiro de 2010 e Fogo: A maestria de Òbá, em fevereiro, foram momentos de intensa troca de experiências. Profissionais do ramo contribuíram com a apresentação do cenário e das perspectivas do mercado da moda. As integrantes têm se mostrado cada vez mais empoderadas sobre direitos, na afirmação de seus espaços e na construção de novas formas de relacionamento na comunidade. Para a Iyawo Luciana D’Iemanjá “Está sendo fantástico participar deste projeto. Eu não tinha dimensão do quanto os assuntos de violência impactam nosso dia-a-dia. E que podemos aprender esses conceitos dentro da religião”.

A participação do projeto no II Diálogo ELAS na Moda e Sem Violência ampliou conhecimentos adquiridos no contato com outros movimentos e possibilitou ainda novas parcerias e novas redes que fortalecem o projeto. Na avaliação da coordenadora, Licia Cristina Costa de Souza, “foi de vital importância para o crescimento individual, coletivo e do projeto.”

Novas parcerias estão sendo estabelecidas a partir do II Diálogo, com LabArremate e África Plus Size (projetos apoiados pelo mesmo edital ELAS na Moda e Sem Violência) e outras organizações parceiras têm ajudado na concepção dos cardápios religiosos, na consultoria de moda para a confecção das vestimentas religiosas, em aulas práticas de cânticos ancestrais e na confecção dos acessórios sagrados.

A partir desta atuação em rede, o projeto tem sido procurado para iniciativas similares em outros espaços religiosos.